Já se foi o tempo em que a expressão “ladrões de bicicleta” fazia alusão aos criminosos inexperientes. Sim, há ainda os oportunistas, mas surgem cada vez mais especialistas, meliantes que sabem avaliar as bicicletas top de linha e se concentram nelas no momento de agir. Esses casos, infelizmente, aumentam na mesma medida em que mais pessoas aderem a uma boa bicicleta.
As estatísticas alertam ao aumento do risco em todo o país, com maior concentração no sul e sudeste. Segundo a Secretaria de Estado de Defesa Social de Minas Gerais, houve um aumento de furtos de bike no estado de quase 30% em 2014, comparado a 2013. Curitiba – PR registra, neste início de 2015, média de um roubo de bicicleta a cada dois dias. A Secretaria de Segurança Pública de Santa Catarina registrou, nos primeiros 41 dias do ano, 340% mais assaltos a ciclistas que a média diária de 2014 em Florianópolis. No portal Bicicletas Roubadas, criado por Pedro Cury em 2001 com o objetivo de ajudar na recuperação de bikes furtadas e mapear áreas de risco, São Paulo aparece no ranking com maior casos de roubos e furtos, representando mais de 40% das ocorrências nacionais (ressalta-se que este banco de dados é alimentado pelo próprio ciclista vítima do infortúnio e não substitui o registro de Boletim de Ocorrência).
Um problema mundial
O aumento na insegurança dos ciclistas não é um problema exclusivo do Brasil. Mesmo em países desenvolvidos há locais perigosos de se pedalar. Veja alguns dados pelo mundo:
- Segundo estudo publicado no portal Geld.de, 326.159 bicicletas foram roubadas na Alemanha em 2012, sendo que quase metade desapareceram nas principais cidades alemãs com mais de 100 mil habitantes. Dificilmente os ladrões são pegos. Suspeita-se até da atuação de pequenos bandos especializados em roubos de bicicleta que realizam arrastões nas cidades alemãs.
- Uma força-tarefa foi anunciada na cidade norte-americana de Portland para tentar reduzir em 50% os roubos de bicicleta em cinco anos, segundo o portal oregonlive.com. Cerca de 2.700 bicicletas avaliadas em dois milhões de dólares foram relatadas à polícia como roubadas em 2014.
- Há um tipo de trava extremamente resistente que é denominada “new yorker”, uma referência à cidade de Nova Iorque, nos EUA, um dos locais com maior e mais sofisticado índice de roubos de bicicletas no mundo.
- O sistema de bicicletas Vélib estreou em Paris no ano de 2007, com 20.600 bicicletas alugadas a um euro por hora. Dois anos depois, 80% das bikes haviam sido depredadas ou roubadas.
- A Holanda é um país conhecido pelas bicicletas: há 16,7 milhões de pessoas e 16,5 milhões de bicicletas: aproximadamente uma para cada habitante. Mas os holandeses utilizam bicicletas mais “surradas e velhas”. A explicação: cerca de 20% das bikes são roubadas por ano. Amsterdã tem fama de ser a capital do roubo de bicicletas do mundo.
Além de mais bicicletas de alto valor estarem circulando, o furto de bicicleta é um crime de baixo risco: “dificilmente o meliante é pego, e quando é, as consequências são mínimas”, diz um estudo do blog norte-americano priceonomics. Resumo da ópera: tem muito ciclista que investiu um valor elevado em seu equipamento, mas acaba usando uma segunda bicicleta, de menor valor, e deixa a “top” em casa para utilizar apenas em competições ou pedaladas em grupo. Deixar a melhor bicicleta em casa não é o desejo da maioria, e também não é garantia de segurança, já que mesmo dentro de casa ela pode ser alvo dos meliantes.
Diante deste cenário, o seguro para bicicleta surgiu e tem se popularizado como uma solução para proteger este bem. Segundo o Sindicato dos Corretores do Estado de São Paulo (Sincor), a procura por seguros contra furtos e roubos de bicicletas no estado paulista triplicou entre 2012 e 2014.
A Estar Seguros, criada por Luiz Fernando Giovannini há dez anos, é pioneira no seguro de bicicletas no Brasil e atualmente administra milhares de apólices. “Hoje em dia temos clientes segurados de ‘a a z’, em decorrência da insegurança que o biker sente ao sair com sua magrela, seja ele atleta ou entusiasta”, diz Luiz. Também em 2005, a Kalassa Brasil Insurance também passou a oferecer o seguro.
Com a demanda em alta, é crescente o número de corretoras oferecendo o seguro que atenda ao público ciclista. A Neptunia Corretora de Seguros, por exemplo, trabalha com seguro para bikes há cinco anos. Segundo Douglas Dias, comercial técnico da corretora, “a Neptunia tem 62 anos de mercado, e em 2010 entrou no nicho de seguro para bicicletas dada a necessidade identificada por nossos sócios, que são esportistas. Hoje, temos centenas de clientes em todas as regiões do Brasil”.
Outro exemplo é a seguradora Argo Brasil, que em parceria com a corretora Better Seguros, oferece seguro Protector Bikes. Segundo Janete Tani, gerente de riscos patrimoniais da Argo, “nosso seguro basicamente é procurado por atletas que buscam garantir a integridade de seu equipamento, bem como a tranquilidade em seus treinos e provas por todo o país, uma vez que a cobertura é nacional”.
E no meu caso, seguro é a solução?
Para responder a esta pergunta, vale recorrer ao conceito de seguro. Os artigos 757 a 802 do Código Civil, além de legislação extravagante que lhe diz respeito, tratam amplamente do tema “seguro” no direito brasileiro. Sucintamente, seguro é um contrato pelo qual a seguradora, mediante recebimento de um valor monetário estipulado denominado prêmio, assume perante o segurado a obrigação de indenizá-lo caso ocorra um sinistro, resultante de um evento futuro, possível e incerto (risco) indicado no contrato. Tais riscos podem estar relacionados à vida, saúde, direitos ou patrimônio do segurado, como é o caso da bicicleta.
Quanto maior o “risco”, mais sentido faz realizar o seguro. Para ilustrar, um caso bem extremo é o da Escola de Bicicleta Ciclofemini, de São Paulo – SP, que realiza cursos com atividades práticas ao ar livre, em parques da capital paulista, sujeita, portanto, a um grau de risco elevado. Segundo Claudia Franco, idealizadora desta instituição educadora, “como somos uma escola, temos muitas bicicletas, algumas de valor importante. Sabendo do aumento de roubos e furtos de bicicleta, decidimos segurar todas as bicicletas para termos um pouco mais de tranquilidade ao utilizá-las. Assim como temos seguro da casa, do carro, seguro de vida, resolvemos fazer também o seguro das bicicletas”.
Outro ponto a ser levado em consideração para analisar a viabilidade do seguro é o valor do bem. A maioria das seguradoras exige que a bike tenha um valor mínimo, que gira em torno de R$ 3.000,00. Patrícia Collese, que atua no ramo de seguros a mais de 25 anos, afirma: “o perfil dos segurados é de pessoas preocupadas com proteção, prevenidas e que normalmente pedalam duas ou mais vezes por semana. Elas possuem uma bicicleta de um custo um pouco mais elevado que a média”.
O nicho de seguro para bicicletas ainda tende a crescer e evoluir no Brasil, adaptando-se à nossa realidade e necessidades, com corretores cada vez mais especializados, garantindo ainda mais tranquilidade para o ciclista. Se você tem uma bicicleta de valor maior, mas se sente intimidado em certas situações, com medo de ser assaltado ou furtado, avalie a alternativa de realizar um seguro. Ter alguma garantia de reposição do seu bem e proteção ao seu patrimônio lhe deixarão mais à vontade para aproveitar sua bicicleta do jeito que você sonhou ao adquiri-la.
FONTE: www.revistabicicleta.com.br
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